quinta-feira, 1 de julho de 2021

Percepções de quando descobri a ah/sd

 Descobrir a superdotação - em sua conceituação atual e não na imagem mental e estereotipada que eu tinha - me fez entender os tantos processos que passei a minha vida toda. Mais que isso, entender porquê eu tinha tanta consciência deles. Uma consciência densa e profunda de tudo que se passava dentro de mim, complementada pela consciência do que se passava externamente.

O âmbito racional é só um dos pontos e, para mim o menos impactante. Talvez porque minha inteligência tenha sido sempre reconhecida externamente o que me facilita o autoreconhecimento. Ao mesmo tempo que ainda penso que ela está aquém a inteligência que eu imaginava que deveria ser de um superdotado (a dificuldade de falar e pensar esse termo no feminino não é a toa). 

Seguindo: o choque, a libertação e a explosão de sentido se deu quando eu vislumbrei conceitualmente a possibilidade de todo meu sofrimento emocional e sensorial serem também um reflexo da superdotação.

Então quer dizer que esse sufocamento de emoções que me aterra é "comum"? Essa invasão sensorial do mundo externo que me tira do eixo, me faz perder o ar é algo compartilhado com meus pares? EU TENHO PARES?!

Por tanto tempo julguei que esse sentir excessivo, essa flor da pele emocional era um erro, uma falha, pior: uma falta de desenvolvimento, um atraso. Por que sentir era tão pesado? Por que as outras pessoas não paralisavam como eu? Por que tudo era tão maior que eu?

E então eu vi que nada disso era maior que eu, mas que eu havia feito tanto esforço para em apequenar, para caber na realidade que eu via como certa que diminiu meu tamanho e ele não dava conta desse sentir. 

E sinto aqui um desejo enorme de culpar os outros, meu entorno, a sociedade... dizer que eles me ensinaram a fazer isso. Mas a clareza dos meus processos me mostra também que esse apequenamento foi uma decisão minha. Talvez decisão seja uma palavra forte, porque acho que eu era pequena demais quando isso se deu. Eu sentia profundamente o mundo interior, eu enxergava também o exterior: microexpressões, sons, olhares, o tom de voz...

Muito cedo aprendi nessa leitura humana o que era ou não "normal". O que era ou não o esperado. E me moldei, e fui criando essa forma para me encaixar. Eu pensava em imagens: sábado era um quadrado amarelo, domingo um círculo vermelho. Mas isso soou estranho pois não era assim que a maioria pensava. Então tratei de limar e guardar como uma lembrança divertida de uma criança aprendendo a pensar como os outros.

 Essa riqueza sensorial externa também me fez sofrer. Ler tantas pessoas e ao mesmo tempo, e isso trazer gatilhos internos... era sufocante. Mas esse sufocamento se dá muito por eu entender esse funcionamento como falha: uma imaturidade emocional que me impedia de criar limites entre mim e o mundo. Um defeito de fabricação que me fazia ser vulnerável demais, suscetível demais e a culpa de me permitir ser assim. E então além do apequenamento criei a culpa, a vergonha por ser quem eu era.

Diferente demais, sensível demais, influenciável demais. A inteligência parecia ser só uma das poucas qualidades, mas nem era assim tão maior, brilhante ou genial como um superdotado deveria ser. Um pontinho acima da média, uma curvinha diferente que frente as falhas de fabricação se dissipava. Pior: de que me adiantava essa inteligência tão admirada por uns (odiada por outros) se eu não podia usa-la inteira devido as paralisações do excesso do sentir? Das falhas emocionais e sensoriais que me vinham.

A ansiedade que me tomava já quando criança me fez achar que eu nunca poderia fazer nada grandioso porque ser vista demais também não era agradável: os estímulos que vinham com a visibilidade eram maiores. Mais gente, mais olhares e microexpressões, mais pensamentos para tentar decifrar. Mais gatilhos internos sendo ativados. E mesmo sem ser o foco os gatilhos sensoriais já me são demais.

Só de me imaginar na Praça Dom Epaminondas com mil pessoas passando, os sons, as vozes, o excesso. Me sinto ainda menor e mais frágil. Pareço perceber meu raciocínio se esvair, fica difícil pensar nesse cenário. - como posso ser inteligente se meu cognitivo se esvai assim?

Não dar conta do centro de uma cidade me fazia achar que era bicho do mato. Acostumei com a cidade pequena, o marasmo. "Meu cérebro não tem plasticidade para se adaptar a uma cidade grande". 


Enquanto escrevo essas percepções já tão mudadas pelas novas descobertas sobre mim e a ah/sd lembro dos momentos que fui adaptando meu discurso.

Hoje percebo a minha dificuldade de manter uma conversa por mensagem, cada frase passa por um filtro interno para não soar diferente demais:

- varro meu vocabulário buscando termos mais comuns. Palavras incomuns e termos diferentes são mal vistos, as pessoas consideram arrogância e elitismo.

- Penso e repenso a ordem das palavras, linear o suficiente?

- texto escrito: leio e releio. Profundo demais? Complexo demais? Informação demais? Não quero soterrar ninguém com excesso de informação.

- está seco demais? Quero ser gentil, não quero que entendam como complexo de superioridade ou arrogância. 

 - falar é difícil demais porque esse filtro fica ainda mais pesado. E se torna um passo a mais na tradução do pensamento. 

Esse filtro serve para me manter protegida da interpretação de arrogância e de superioridade. Mas tem também a função de tornar a comunicação mais palatável para os demais.


A expressão e a comunicação são essenciais para mim. Me alimento delas desde muito nova. Mas me expressar e me comunicar por si só não me é suficiente. Eu preciso que o que comuniquei seja entendido, considerado.

E mais uma vez, desde muito nova, aprendi a ler essa compreensão: rosto franzido tentando entender o que eu disse, olhar perdido ignorando o que eu disse, sinais corporais querendo sair da conversa...

Dizer não era suficiente para mim. Eu queria dizer e queria que escutassem, depois entendessem e o melhor dos mundos era que acompanhassem meu raciocínio e seguissem raciocinando comigo... era tão raro. 

 O problema da raridade era que me fez entender que a errada era eu. Todo mundo se comunicava, estabelecia diálogos, porque eu não conseguia? Por que minhas ideias eram tão complexas? Por que demorava tanto para eu tentar traduzir um pensamento? E por que na maioria das vezes eu não conseguia?

Calar se tornou mais seguro. Criar um filtro para linguagem essencial foi um caminho - e nesse instante percebo de onde vem meu cansaço. Por que escrever uma simples mensagem me esgota. E penso que esse é só o começo das minhas descobertas sobre mim mesma sob esse novo prisma.



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